Boa tarde..
Gostaria de indicar a leitura de um ótimo artigo: “Motivações do cidadão-repórter na produção jornalística em ambientes virtuais: incentivo, recompensa e reconhecimento“. Texto de Rafael Sbarai Santos Alves, do blog derepente.
O tema por si só já é rico, e foi complementado com uma ótima exposição e escrita do autor. Por exemplo, porque estou escrevendo este post em um sábado a tarde?
No início do texto a resposta é dada como uma necessidade de nosso alter-ego. Segundo Smith(2003, p. 50), durante sua investigação sobre a riqueza das nações, em 1776, já entendia que o auto-interesse movia a participação alheia e estimulava o trabalho e sua divisão.
Será que sou egoísta?
Alves também cita outro possível motivo: romper o isolamento social.
O autor fala de dádiva, que, segundo ele, surge como experiência na qual a distância entre fins e meios é abolida, não mais as relações mercantis regem o vínculo social , mas aquilo que nos conecta aos outros de modo a romper o isolamento social , a aumentar a liberdade dos parceiros de interação e a construir relações simbólicas pautadas pelas ações de dar , rece ber e retri buir.
Já no viés econômico propagado por Benkler (2006, p. 120), existem fatos psicológicos e sociais que provocam a produção de bens coletivos - ‘commons’ - transcendendo o princípio de propriedade ou remuneração como um possível retorno ao que foi produzido . Segundo o autor , as novas condições da tecnologia proporcionam construções colaborativas, sendo que estes processos passam a conviver com o sistema de mercado vigente. (Alves)
O autor também fala sobre sentimentos de desrespeito e opressão para explicar a colaboração online:
Tanto Honneth quanto Fraser sustentam que formas de opressão simbólica e desrespeito motivam a ação dos indivíduos e grupos nas sociedades atuais . Assim , a colaboração, a reciprocidade e a disposição para colaborar com os outros teria origem em formas de desrespeito específicas. Honneth assinala, portanto, três modelos de desrespeito : formas que afetam a integridade corporal dos sujeitos (sua autoconfiança); a denegação de direitos, que visa o (auto-respeito); e a referência negativa ao valor de certos indivíduos , que afeta a auto-estima dos sujeitos.
Ter respeito a uma pessoa também significa que o que ela fez ou o que ela é consiste em algo excepcional, particular o bastante para valer mais do que o que fizeram ou o que são os outros. E, por fim, é também uma forma de dizer que a pessoa é amada justamente por isso. Empregada neste sentido, a palavra respeito subsume a estima e o amor para além do respeito legal, anonimamente devido a todos (Caillé, 2008, p.158).
Também achei muito interessante estes dosi parágrafos:
Kollock (1999, p 7) acredita que existem quatro decisivos atributos de motivação em ambientes colaborativos online. O autor inicia sua explanação para identificar os fatores fundamentais que promovem projetos participativos na web a partir do auto-interesse pessoal – chegando ao conceito de egoísmo - para a propagação de informações, usando como princípio o “o altru ísmo ou uma ligação sentimental ”. Segundo ele, estes são os fatores fundamentais: RECIPROCIDADE, PRESTÍGIO, ESTÍMULO SOCIAL e ESTÍMULO MORAL.
Três correntes básicas se fazem presentes entre as razões que movem a atividade de um cidadão-repórter: o desejo de pertencimento a uma coletividade, aprimoramento de habilidades individuais e a mera resposta à solicitação da atividade. Pode-se afirmar que as duas primeiras razões correspondem à passionalidade erguida por Thacker (OMN) como o combustível que move os cidadãos-repórteres. (BRAMBILLA, 2006, p. 166).
Finalizando o excelente artigo, Alves constrói sua conclusão. Na qual concordo plenamente:
Assim, no âmbito da produção jornalística colaborativa, a aproximação entre as pessoas e sua motivação para interagir com os outros se daria menos pelo anseio de compartilhar narrativas e experiências de desrespeito, como defendem Honneth e Fraser, e mais pela vontade do sujeito de sentir-se parte de algo, de ter seu valor e sua contribuição reconhecida no processo de construção de um conhecimento coletivo.
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Que alívio, achei que era egoísta. Mas recomendo e muito a leitura do texto, muito bom.
Att.
Ricardo